Entender como o câncer se desenvolve é essencial para compreender por que essa doença pode se comportar de maneiras tão diferentes entre uma pessoa e outra.
Hoje sabemos muito mais sobre suas causas, suas características e as formas como ele progride no organismo.
Esse conhecimento tem permitido tratamentos cada vez mais eficazes e personalizados.
Continue a leitura para saber como o câncer se desenvolve, evolui e quais são as principais opções terapêuticas disponíveis.
O câncer não é uma única doença, e sim um conjunto de condições diferentes marcadas pelo crescimento descontrolado de células anormais.
Essas células acumulam alterações no material genético que permitem que elas escapem dos mecanismos naturais de defesa do corpo, cresçam sem limite, invadam tecidos ao redor e, em muitos casos, se espalhem para outras partes do organismo, processo chamado de metástase.
Normalmente, o corpo possui sistemas muito bem organizados para controlar o ciclo de vida das células, corrigir erros no DNA e eliminar células danificadas por meio da apoptose (a morte celular programada).
Quando esses mecanismos deixam de funcionar, por mutações em oncogenes, genes supressores tumorais ou genes responsáveis pelo reparo do DNA, inicia-se a carcinogênese, o processo que leva ao desenvolvimento do câncer. Esse processo pode levar anos ou até décadas até se manifestar de forma perceptível.
Ao longo dos últimos anos, cientistas vêm tentando entender o que torna as células cancerígenas tão agressivas.
Entre os pesquisadores mais importantes nesse campo estão Douglas Hanahan e Robert Weinberg, que estudaram como o câncer se desenvolve e identificaram características comuns entre diferentes tipos de tumores.
Com o avanço da ciência, esse modelo foi atualizado. Hoje sabemos que as células malignas também conseguem modificar o ambiente ao redor do tumor, escapar da ação do sistema imunológico e reprogramar seu metabolismo, adquirindo ainda mais vantagens para crescer e sobreviver.
Entender como o câncer se desenvolve envolve considerar vários fatores que, ao longo da vida, podem se combinar e aumentar o risco. Entre os principais estão:
O câncer surge justamente da combinação entre características próprias de cada pessoa e as exposições ambientais ao longo do tempo, o que explica por que o risco varia tanto entre indivíduos e populações.
O tratamento do câncer envolve uma equipe multidisciplinar e precisa ser personalizado de acordo com o tipo de tumor, o estágio da doença e os biomarcadores moleculares identificados. Confira abaixo as principais abordagens disponíveis atualmente.
A cirurgia foi o primeiro tratamento utilizado contra o câncer e continua sendo a principal opção com intenção curativa em tumores localizados.
Seu objetivo é remover totalmente o tumor primário, muitas vezes junto com a linfadenectomia regional, que é a retirada dos linfonodos próximos ao tumor para avaliar e tratar possíveis áreas de disseminação.
Entre os avanços mais importantes estão as técnicas minimamente invasivas, como laparoscopia e cirurgia robótica, além de procedimentos mais conservadores, que reduzem a morbidade sem prejudicar o controle oncológico.
A radioterapia utiliza radiação ionizante para destruir as células do tumor, buscando preservar ao máximo os tecidos saudáveis ao redor.
Com as técnicas modernas — como IMRT (radioterapia modulada por intensidade), SBRT (radioterapia estereotáxica corporal) e protonterapia — é possível tratar a área do tumor com muito mais precisão e menor toxicidade.
A radioterapia pode ser indicada com diferentes objetivos:
A quimioterapia utiliza medicamentos que interferem no ciclo de divisão das células e, por muitos anos, foi a principal forma de tratamento sistêmico do câncer.
Apesar de causar efeitos colaterais importantes, como queda de cabelo, redução das células do sangue (mielossupressão) e náuseas, ela ainda tem um papel fundamental em vários tipos de tumores, especialmente nos estágios mais avançados.
Ao contrário da quimioterapia, que age de forma mais ampla, as terapias-alvo foram desenvolvidas para bloquear moléculas específicas que ajudam o tumor a crescer.
Entre os exemplos estão os inibidores de EGFR, ALK, HER2, BRAF, FGFR2, entre outros.
O sucesso desse tipo de tratamento depende da identificação de biomarcadores moleculares (alterações específicas do tumor que ajudam a escolher a terapia mais adequada), feita por exames como imunohistoquímica, FISH e sequenciamento de nova geração (NGS).
A imunoterapia transformou a oncologia na última década. Mas, mesmo com os avanços, esse tipo de tratamento pode causar efeitos colaterais relacionados à autoimunidade, exigindo acompanhamento especializado.
Os inibidores de checkpoint imunológico (como anti-PD-1, anti-PD-L1 e anti-CTLA-4) permitem que o sistema imunológico volte a reconhecer e atacar as células do tumor.
Há também as terapias celulares, como os CAR-T cells, que já são usadas no tratamento de alguns tipos de leucemias e linfomas e começam a ser estudadas em tumores sólidos.
Hoje, a combinação de diferentes tratamentos é comum em muitos casos de câncer. Exemplos incluem:
O futuro da oncologia segue em direção à medicina de precisão, na qual o tratamento é definido não só pelo tipo de tumor e pelo estágio da doença, mas também pelo perfil molecular individual de cada pessoa.
Tecnologias como biópsia líquida, análise de ctDNA e o uso de inteligência artificial aplicada a imagens e dados genômicos estão transformando a forma como diagnosticamos, acompanhamos e tratamos o câncer.
O câncer continua sendo uma das principais causas de morbidade e mortalidade no mundo. No entanto, o avanço no entendimento sobre como o câncer se desenvolve, somado ao surgimento de terapias cada vez mais inovadoras, têm mudado de forma significativa o prognóstico de muitos pacientes.
Mesmo assim, cada pessoa vive a doença de um jeito único, e por isso é essencial buscar acompanhamento com um especialista, que poderá avaliar o caso individualmente e indicar o tratamento mais adequado.
O grande desafio atual da oncologia é garantir que esses avanços cheguem a todos, para que o progresso científico resulte em benefícios reais e acessíveis para toda a população.
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