A Sessão Plenária da ASCO representa tradicionalmente o momento de maior destaque científico do congresso, reunindo estudos com potencial de modificar a prática clínica e antecipar tendências futuras da oncologia.
Os cinco trabalhos selecionados para a Sessão Plenária da ASCO 2026 abordaram cenários distintos — câncer de próstata, pulmão, sarcoma e pâncreas — mas transmitiram uma mensagem comum: a oncologia está se tornando cada vez mais biológica, mais personalizada e mais focada em aumentar as chances de cura.
Os estudos PROTEUS, LIBRETTO-432, HARMONi-6, SARC041 e RASolute-302 evidenciaram quatro movimentos importantes da especialidade: a expansão dos tratamentos perioperatórios, a consolidação da medicina de precisão nos estágios iniciais da doença, a chegada das terapias-alvo aos tumores raros e o surgimento de estratégias eficazes contra alvos moleculares historicamente considerados intratáveis.
Pacientes com câncer de próstata localizado de alto risco apresentam risco significativo de recorrência após tratamento local definitivo.
Apesar dos excelentes resultados da cirurgia e da radioterapia, muitos pacientes evoluem com recidiva bioquímica e progressão metastática.
Foram incluídos pacientes com adenocarcinoma de próstata localizado de alto risco, candidatos à prostatectomia radical e sem evidência de doença metastática.
O PROTEUS foi um estudo fase III randomizado que avaliou o uso de apalutamida associada à terapia de privação androgênica (ADT) antes e após a prostatectomia radical.
Os pacientes foram randomizados para:
Os principais objetivos foram resposta patológica e sobrevida livre de eventos.
O estudo demonstrou aumento significativo das respostas patológicas e melhora da sobrevida livre de eventos, reduzindo o risco de recorrência após o tratamento cirúrgico.
Mais importante do que os números apresentados, o PROTEUS consolida um conceito que já transformou outros tumores sólidos: o tratamento sistêmico administrado antes da cirurgia pode aumentar as chances de cura.
Mama, pulmão, bexiga, esôfago e estômago já haviam seguido esse caminho. A ASCO 2026 mostrou que a próstata agora também faz parte dessa tendência.
Após os resultados transformadores dos estudos ADAURA (EGFR) e ALINA (ALK), surgiu uma pergunta natural: pacientes com fusão RET também poderiam se beneficiar de terapia-alvo após a cirurgia?
Foram incluídos pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células (CPNPC) estádio IB-IIIA, RET positivo, submetidos à ressecção completa da doença.
Estudo fase III randomizado comparando:
O endpoint primário foi sobrevida livre de eventos.
O estudo demonstrou redução aproximada de 83% no risco de recorrência ou morte, com taxas de sobrevida livre de eventos superiores a 90% em dois anos.
O LIBRETTO-432 reforça que o perfil molecular deixou de ser uma ferramenta exclusiva da doença metastática.
O impacto do estudo vai além do tratamento. Ele modifica a forma como investigamos os pacientes.
A realização de testes moleculares amplos em doença inicial passa a ser cada vez mais necessária para identificar pacientes candidatos a terapias potencialmente curativas.
O câncer de pulmão escamoso metastático continua sendo uma doença de prognóstico reservado, mesmo após os avanços da imunoterapia.
Pacientes com CPNPC escamoso avançado sem tratamento prévio para doença metastática.
O estudo comparou:
O ivonescimabe é um anticorpo biespecífico capaz de bloquear simultaneamente as vias PD-1 e VEGF.
Foi observado ganho significativo de sobrevida global, com mediana próxima de 28 meses e redução importante do risco de morte.
O conceito biológico por trás do estudo é extremamente atraente. A combinação simultânea de imunoterapia e bloqueio angiogênico em uma única molécula pode representar a próxima geração de tratamentos imunológicos.
Entretanto, permanece uma questão importante: o comparador utilizado foi o tislelizumabe, e não o pembrolizumabe, atualmente considerado padrão global em muitos cenários.
Por isso, embora o estudo seja claramente positivo, ainda serão necessários dados adicionais para definir seu posicionamento definitivo.
O lipossarcoma desdiferenciado é um dos sarcomas mais desafiadores da prática clínica, com poucas opções terapêuticas eficazes.
Pacientes com lipossarcoma desdiferenciado avançado e progressão após tratamentos prévios.
Estudo fase III randomizado comparando:
A racionalidade do estudo baseia-se na frequente amplificação de CDK4 observada nesse subtipo tumoral.
Foi observada melhora significativa da sobrevida livre de progressão e maior controle tumoral.
Embora não tenha o mesmo impacto populacional dos demais estudos da plenária, o SARC041 possui enorme relevância conceitual.
Ele demonstra que a medicina de precisão está alcançando também os tumores raros, permitindo que vulnerabilidades biológicas específicas sejam exploradas terapeuticamente.
Poucos tumores apresentaram avanços tão limitados nas últimas décadas quanto o adenocarcinoma pancreático metastático.
Pacientes com adenocarcinoma pancreático metastático previamente tratado e portadores de alterações na via RAS.
Estudo fase III global comparando:
O endpoint primário foi sobrevida global.
O estudo demonstrou:
O RASolute-302 foi provavelmente o estudo mais impactante da ASCO 2026.
Durante décadas, o RAS foi considerado um alvo terapêutico praticamente inacessível. Os resultados observados sugerem que essa percepção finalmente está mudando.
Se os dados forem confirmados na prática clínica, poderemos estar diante de uma das mudanças mais relevantes da história recente do tratamento do câncer de pâncreas.
Analisando os cinco estudos apresentados na Sessão Plenária da ASCO 2026 em conjunto, torna-se evidente que a oncologia está evoluindo em quatro direções principais.
Primeiro, observamos uma migração crescente das terapias sistêmicas para os estágios iniciais da doença, com o objetivo de aumentar as taxas de cura. PROTEUS e LIBRETTO-432 são exemplos claros desse movimento.
Segundo, a biologia molecular está assumindo papel central nas decisões terapêuticas. RET, RAS e CDK4 demonstram que compreender a biologia do tumor é tão importante quanto definir seu estadiamento anatômico.
Terceiro, a medicina de precisão está deixando de ser exclusiva dos tumores mais comuns e alcançando doenças raras, como os sarcomas.
Por fim, a plenária mostrou que alvos moleculares historicamente considerados impossíveis de serem explorados terapeuticamente estão finalmente produzindo benefícios clínicos relevantes.
A Sessão Plenária da ASCO 2026 não apresentou apenas cinco estudos positivos. Ela revelou uma transformação estrutural da oncologia moderna.
Estamos entrando em uma era em que o tratamento é definido cada vez mais pela biologia da doença e menos pelo órgão de origem do tumor.
Ao mesmo tempo, as estratégias terapêuticas avançam tanto para aumentar as chances de cura nos estágios iniciais quanto para oferecer opções mais eficazes aos pacientes com doença avançada.
Se fosse necessário resumir a principal mensagem da plenária em uma única frase, ela seria:
A oncologia de 2026 está deixando de ser uma especialidade baseada apenas no local onde o câncer surgiu e se tornando uma especialidade guiada pela biologia tumoral, com o objetivo de curar mais pacientes e tratar melhor aqueles com doença avançada.